terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Chapéu de palha




Mundo estranho este em que vivo, mundo do qual nada eu entendo.
Tecnologia de ponta, lixo produzido aos milhões, fast-food aos borbotões
Nos shoppings centers brilhantes, onde compramos efêmeras satisfações.
Na casa vazia de amor, a tela de um computador o espaço vai preenchendo.

Há um novo apêndice entre nós: o celular viva-voz, que não nos deixa sequer um instante sozinhos,
Um toque personalizado anuncia a chegada do amado prá fashion menina adolescente.
O cinema três dimensões coloca os sonhos ao alcance das mãos, faz a vida insossa mais atraente.
O bate-papo on-line nos põe a disposição miríades de gelados corações propondo novos caminhos.

Troco toda essa parafernália por uma festa em Maracangalha, ouvir uma banda de pífanos, sentir uma alegria real;
Assistir as evoluções de uma quadrilha, dançar um forró bem tocado e pedir prá manhã não chegar.
Comer batata com leite, andar a esmo nos campos, sujar a cara de manga, no límpido rio me banhar.
À tarde encontro os amigos na rua, serenata prá noite marcada, estrelas no céu sem conta, Lua com brilho total.

Vou pegar meu chapéu de palha, minha alpercata de couro, fugir correndo daqui, antes que seja tarde demais.
Quero reencontrar minha rede, plantar feijão prá comer, fazer a minha coalhada, poder com o silêncio falar.
Não preciso de muita coisa: quero alguns livros prá ler, um pandeiro prá cantar coco embolado e um violão prá tocar.
Este meu mundo eu entendo, do outro nada conheço. Vou carregar pro meu mundo o amor que tanto eu mereço - que tanta falta me faz.

Dá um imenso aperto no coração quando me sinto envolto por esse barulho ensurdecedor que atormenta as nossas cidades de hoje. A mim me parece como um monstro faminto querendo a tudo devorar. Nesses momentos, viajo mentalmente para meu refúgio debaixo de um pé de um umbu, revejo as coisas que povoaram a minha infância e adolescência, reatando laços ancestrais que preservam a minha sanidade.


Cidade dos sonhos, manhã da segunda Terça-Feira de Fevereiro de 2010

João Bosco

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Lição de amor



Disseste-me, indignada, que de tudo que vivêramos um dia,

Restaram apenas palavras, palavras eternizadas numa singela poesia.

Emudeci! Mas nada argumentei de pronto – não cabia em mim de espanto.

Pensava comigo: como alguém poderia reclamar de ter vivido um amor tão cheio de encanto?

Um amor iluminado a luz de beijos tantos, um amor capaz de deixar de herança uma poesia?

Será que tu (tu que encarnaste esse amor transformado em poesia) foste capaz de amar um dia?

Quem ama verdadeiramente não transmuta seu sentimento. Se amou ontem, vai continuar amando hoje e amanhã, independente de estar junto ou não. Amor verdadeiro é desprendimento, não é posse.

Cidade dos Sonhos, tarde do primeiro Sábado de Fevereiro de 2010

João Bosco

Pérolas esparsas




O aguilhão do desejo me assalta, vulcão explode incontido.
Nesta manhã, solteira e ensolarada, em que tua recordação cobre a minha nudez,
Todas as mulheres da minha vida reúnem-se numa só – escarnecem de minha pseudo-altivez.
Cintilam estrelas em teus olhos, miram fundo em minha alma, resgatando o que lá está escondido.

Não há glória no gozo negado, não há prazer em noites perdidas, velas queimando esquecidas no criado mudo.
Fecho os olhos prá não te ver. Inútil: no sonho tu não me deixas, mostra-me que não posso te esquecer.
Mergulho a procura de pérolas esparsas no obscuro mar de nossa insensatez - encontro os mesmos hiatos que não consigo vencer.
Sou demasiado humano, constato. O animal, aceso dentro de mim, não se contenta com pouco – de ti quer provar de tudo.

Nossa história de amor se embaraça como uma caravela presa na calmaria, mastros caídos em confusão.
Protegidos em nossa memória, nossos momentos mais lindos, sentinelas atentos de um diálogo que hoje não flui como antes.
São inúmeras questões que não mais sabemos responder, ultrapassamos a fímbria dos sonhos – a realidade está nos colocando distantes.
Levanto, a medo, meus olhos ao encontro dos teus, sazonais encontros de almas – Lua e Sol se dando as mãos.

Quando amamos, não nos contentamos com nada parcial, com metades, queremos compartilhar de todos os momentos, bons e ruins, ao lado do ser que amamos. O amor só se concebe como amor total quando se divide tudo – quando se soma ternura e paixão.




Cidade dos Sonhos, manhã do primeiro Sábado de Fevereiro de 2010


João Bosco

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Lágrimas de prata



Teu cabelo jogado de lado

Teu trêmulo falar desconexo, grandes olhos marejados;

Tuas lágrimas o rosto molhando, incontidas lágrimas de prata.

Um quadro de indescritível beleza, malgrado a tua pungente tristeza.

Sufoco a vontade de te carregar no colo, te prender num abraço sem fim.

No entanto, fico distante, uma fronteira de giz nos separa - ando ainda a procura de mim.

O amor carrega nuances difíceis de mensurar: como a extrema sensualidade contida num rosto de mulher molhado de lagrimas - impossível não querer cobri-lo de beijos.

Cidade dos sonhos, noite da primeira Sexta-Feira de Janeiro de 2010

João Bosco

Acidente de trânsito



Tal qual um caminhão desgovernado, descendo a ladeira,

Frases feitas, insípidas, colidem com ébrias expectativas.

Vítimas adolescentes, amores sem vida, são retiradas dos escombros.

Uma providencial chuva de verão apaga as marcas do ato:

Na manhã ensolarada, a dama de batom vermelho faz ressoar os seus passos ritmados,

Recados codificados, endereçados ao observador postado na janela.

Sonhos que se querem eternos, cadáveres enfileirados, na fria rigidez do asfalto.

A chaminé da fábrica entra em operação, o camelô, esfregando os olhos de sono,

Apregoa as suas quinquilharias. O cheiro de pão, vindo da padaria, impregna as narinas;

Na praça deserta, o pregador demente anuncia o fim do mundo aos gritos.

Atrás da árvore, um casal de namorados, alheio a tanto conflito, troca um beijo sem final.

A normalidade se instala, ocupa o lugar do abandono – o coro dos contentes ensaia prá mais um dia.

Quando eu era ainda uma criança, e me sentia muito triste, corria para a beira do rio Gongogi, aonde ficava olhando as águas plácidas por horas e horas. O canto da correnteza, logo acima, me trazia de volta a paz, da qual, por instantes, eu havia me divorciado.

Terras de São Paulo, manhã da primeira Sexta Feira de Fevereiro de 2010

João Bosco

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Falas desencontradas



Hirto, pensativo, parado.

Sem forças prá questionar...

As palavras, exauridas, não mais fazem sentido;

Choram, depositadas numa conta a descoberto.

Paira sobre nós dois, insidiosa, a sombra terrível da dúvida,

Nota dissonante em uma pauta límpida.

Estamos precisando urgentemente de um tradutor.

As nossas falas não mais se encontram – tomaram rumos diversos.

Desertaram os nossos momentos de encanto, assustados com tanto desalento.

Quiçá, queimando os meus navios, descobrirei que preciso partir.

Olho curioso pro meu umbigo, velho amigo que há muito não vejo.

Em Pasárgada, terra dos sonhos perdidos, me espera a cama em que preciso dormir.

Quando nos aferramos a um discurso pré-estabelecido costumamos fechar as portas para o que não queremos escutar, mesmo ao custo de perdas irreparáveis. O medo da mudança é tão assustador que nos paralisa, premiando-nos com justificativas que não convencem a ninguém – nem a nós mesmos.

Cidade dos sonhos, noite da primeira Sexta-Feira de Fevereiro de 2010

João Bosco

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Máquina do Tempo






Ah! Francisca.
Como eu fui ingênuo, não sabendo receber o amor que me davas.
Os nossos domingos eram coloridos, sentávamos entre as flores para conversar.
Um dia, de mãos dadas, fiquei enciumado da chuva que molhava teus louros cabelos;
Você me sorriu, compreensiva, juntou-se mais a mim e subimos a ladeira, rindo como crianças.

Uma patrulha desastrada metralhou com ignomínia os beijos que me deste.
Não mais te vi: um dia soube que tu havias partido, livrando-me de uma despedida sem lágrimas.
Muitos anos fiquei a exorcizar tua voz de meus ouvidos, inclementes vergastadas para não te esquecer.
Apelidei-te de Tchicha, só prá ver o teu encabulado abaixar de cabeça, quando eu o pronunciava junto de tuas orelhas.

Tu foste a primeira mulher a me fazer gostar de ouvir o meu nome,
Que em tua boca me parecia tão doce, fazendo-me pedir-te que o repetisse para mim multas vezes
Até que o meu nome, saído de tua boca, colasse em mim como uma cicatriz.
Li, numa carta, que você chorava a minha ausência: fechei a carta e as portas da minha vida para nós dois.

Na inexperiência dos meus vinte e um anos conheci Francisca, a minha Tchicha. Tremia quando ela surgia, ao longe, os louros cabelos esvoaçando ao sabor do vento. Foi a partir de Francisca que aprendi a identificar a dor de estômago que significa a pressa de amar, o beijo pausado, sem começo e nem fim. Foi também com a pequena Tchicha que desaprendi de esquecer.


Terras de São Paulo, noite da primeira Quarta-Feira de Fevereiro de 2010.


João Bosco

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sabor lixívia



Nada!

Só niilismos assoberbam os disparatados pensamentos; tonsilas rebeldes procuram oxigênio – fogem da asfixia.

Cavalos bravios, como rios desconexos, corcoveiam sobre este degredado – inútil e desvairado divagar.

Infelizmente não foi ainda criada a fórmula da harmonia instantânea: cada coisa colocada em seu devido lugar.

Oxalá seja este o projeto de nossa era; amores assépticos, beijos descartáveis – no palato um insuportável gosto de lixívia.

Acorda!

Este sofrer é só teu, idiota. Não o queira compartilhar, dividir essa cruz renegada que já não suportas arrastar.

Comporte-se como um cidadão respeitável e não manches as ruas com teu sangue – procures um canto escuro para lamber as tuas mazelas.

Este é o teu legado. Se por acaso achas o fardo pesado, aviso-te: não o poderás largar por aí – um investigativo olhar te acompanha por detrás de cada janela.

Vamos, homem! Pare de resmungar. Tua cota de fel ainda não acabou – amanhã um outro Judas virá cobrar as trinta moedas por te delatar.

E então?

Aprendeste finalmente qual é o teu lugar nesta infernal engrenagem? Ou és daqueles que só entendem a linguagem do chicote?

Se estás bem com Deus terás todas as benesses, mesmo que o prêmio se converta numa noite de estômago contraído e vômitos intermitentes.

Coloque nesta tua cara amarrotada uma máscara de vitoria, saia das cordas batendo. Se não tens uma boa história - não pense duas vezes: invente.

Aviso final: não tentes contestar este modo de vida tão bem elaborado – são milhares de anos ensinando como não se vive, como se vai ao matadouro aos magotes.

A globalização criou um paradoxo interessante que os grandes capitalistas ainda não conseguiram resolver: produzem bens e serviços cada vez com custo menor e com menos pessoas empregadas. Cabe perguntar: com os indivíduos sendo cada vez mais descartáveis em seus empregos, essa superprodução será vendida para quem? Como ilustração, na France Telecom, uma empresa francesa de telecomunicações, 25 funcionários deram cabo da própria vida no período de dezoito meses, (entre Fevereiro de 2008 e Outubro de 2009) insatisfeitos com as mudanças ocorridas na gigante francesa. São mártires modernos dessa engrenagem medonha.

Terras de São Paulo, noite da primeira Segunda-Feira de Fevereiro de 2010.

João Bosco

domingo, 31 de janeiro de 2010

Rendição



Baixei minhas armas: entreguei-me a evidência.

Meu coração, em pedaços, aos corvos se atira.

Abdiquei da cicuta-verdade, sorvi, até a última gota, o néctar da mentira.

Fugiu minha combalida razão: desertou, apavorada, a revel paciência.

Não há grandiloqüência no púlpito da solidão – em seus porões só o abandono impera.

Rimas fáceis são como frutas apodrecidas, risos sem motivos, sexo sem tesão.

A cidade pulsa destrambelhada, gente se atropelando aos borbotões, hora do rush - formigas sem direção.

Não há majestade na renúncia: hienas se alimentam de restos – mortos insepultos o túmulo espera.

A prostituta doente tropeça, embriagada; mais uma imagem que nos aparece desfocada, um tanto irreal.

O colar de pérolas enfeita o pescoço da madame: foi pago em uma noite de gozo – gozo que se requer diferente.

O leito sem sal premia o casal aposentado, anos de lamúrias vividos – peças desarticuladas de um jogo demente.

O que fazer? Pergunto-me atarantado. Simplesmente não sei: não há saídas possíveis – tudo deságua num esgoto letal.

Há momentos na vida da gente que só um palavrão, daqueles bem cabeludos, é capaz de aliviar, mesmo que momentaneamente, a nossa frustração diante do que não podemos mudar. Quando me sinto assim, não economizo – gasto toda a minha cota de palavrões.

Terras de São Paulo, manhã do último dia de Janeiro de 2010

João Bosco