segunda-feira, 15 de junho de 2009

Lembranças de um tempo encantado




Um alpendre todo em madeira, em frente a um verde gramado, enfeitado por cajueiros formando um reino encantado.

Nos mangueiros, bois a pastar, caprinos em profusão, ovelhas lanosas, tranqüilas, na sombra a fugir do sol.

Calangos e lagartixas corriam por todo lado, e lá no fundo da mata, ouvia-se a alegre cantata da rolinha fogo-pagô.

Na majestosa cancela, um assum-preto empoleirado, mostrava pro visitante que ele havia chegado à bela fazenda Pau Preto, lugar dos mais afamados.


Como era bom o ser guia, à frente do carro de bois, embalado pela sinfonia que de suas rodas provinha, num chorar açucarado.

Zé Migué carreiro rijo, firmava pé no batente, domava touro valente e punha canga nas juntas, prá andar emparelhadas.

Trazia carga pesada com três juntas de bois taludos, prá fazenda abastecer de lenha e farinha torrada.

Quando chegava a tardinha meu tio me requisitava pros caprinos arrebanhar: de muito longe eu ouvia, o chocalho do desgarrado.


Ah quantas saudades carrego, dos tempos em que galopava atrás de boi fugitivo, pelos calumbis adentro.

Não tinha medo de espinho, nem mesmo de cobra jibóia; mas temia de verdade, o riso do Curupira e o cantar da Caipora.

Ouvia histórias de Onça, de aparições encantadas, contadas à luz das fogueiras em noites enluaradas, em que, pasmados, não víamos o lento passar das horas.

Hoje distante de tudo, em selva de pedra perdido, recorro à memória banzeira. – Minha fiel companheira vá e me traga, ligeira, não deixe ser esquecido – os meus mais lúdicos momentos.



Entre os meus sete e os dez anos de idade sentia que o mundo tinha tonalidades muito mais vivas, sabores bem mais peculiares do que os que hoje consigo perceber. Ainda faço a minha coalhada do jeito tradicional, como era feito lá na fazenda Pau Preto. A diferença é que aqui não disponho da cabaça prá armazenar o leite, a qual substituo por uma vasilha de alumínio. Quando pronta, o exótico sabor me faz regressar às manhãs em companhia de meu tio, Joãozinho Curvelo, antes de darmos início aos trabalhos diários da fazenda. Este tempo todo especial encontra-se escrito em letras de ouro no livro encantado de minhas recordações.

Vale do Paraíba, noite do segundo Domingo de Junho de 2009

João Bosco (Aprendiz de poeta.)


0 comentários:

Postar um comentário